LIVRO EM CONSTRUÇÃO:
Quero dizer e não digo / E, estou sem dizer,
dizendo / Queres querer ou não queres? / Estou sem querer, querendo./
Queres dizer e não dizes / E estás sem dizer
dizendo / Queres querer e não queres / E o tempo é que estás perdendo. /
Poesia Oral Improvisada
Para o Homem de Marte
Para o Homem de Marte
Autoria de Paulo de Freitas Mendonça
Começo Pelo Final
Escrever
exclusivamente sobre poesia oral improvisada e ao mesmo tempo ser
didático, para mim é um grande desafio porque circulo num grupo que
conhece muito bem o tema, e as questões de entendimento desta arte já
nos são
redundantes, mas faço o possível para cumprir com o papel fundamental do
jornalismo, “escrever ao homem de marte” que é uma metáfora para definir
o conteúdo
do verdadeiro texto de um jornalista, considerando que seu leitor
aterrissa no
planeta e começa a ler seu texto, sem conhecimento técnico anterior
sobre o
tema abordado. Espero que sejam úteis meus humildes escritos e possam
proporcionar
conhecimentos aos leitores que desconhecem esta arte que amo tanto e que
me
proporciona visitar lugares, conhecer gentes e aprender sobre as
culturas de
diversos países.
Começo a
abordagem do tema Poesia Oral Improvisada pelo final, como faz qualquer bom
improvisador, pensa em primeira instância o último verso, para depois construir
sua estrofe de improviso e ter seu arremate de ouro com o verso que vai ficar
na memória da plateia ou pelo menos entusiasmar aos espectadores que retribuem
com seu aplauso.
A poesia oral
improvisada comemora atualmente uma das mais importantes vitórias contra o
esquecimento, porque verso de improviso é verso solto ao vento e por
consequência disso, versos de olvido. Os países formadores do Mercosul
reconhecem, através de seus ministérios de cultura e suas embaixadas, a pajada,
(payada para argentinos e uruguaios e paya para os chilenos) como patrimônio
imaterial do Mercosul. É o primeiro bem cultural imaterial reconhecido como tal
pelo bloco, por ser representativo e autóctone dos países do sul do continente
americano. O reconhecimento oficial acontece numa reunião dos ministros de
cultura dos países do Mercosul, em Brasília e é oficializado em importante
cerimonial no primeiro Festival Cultural do Mercosul, em novembro de 2015, em
Assunção, capital do Paraguai, com a presença de improvisadores dos quatro
países citados.
Mas o que é a
pajada pode me perguntar “o homem de marte”. Eu respondo com prazer que pajada
é uma forma oral de improvisação poética, ou seja, a construção de um poema na
hora, de improviso, ao calor da emoção e que versa sobre qualquer tema que
possa parecer pertinente ao momento. É a arte que nasce e morre no mesmo
instante, se ninguém gravar. Ficam na memória dos que o assistem, os conceitos
criados pelo pajador, mas excetuando-se uma possível gravação, ninguém, nem
mesmo o autor tem condições de recriar o mesmo verso, depois de dito. E, isto é
o que causa tamanha admiração no público que aprecia esta arte.
Mas então é uma
trova, pode me perguntar “o homem da terra rio-grandense”. Respondo sim e não. Sim, porque ambas são
poesia oral improvisada e não, porque cada uma tem sua estrutura estrófica, sua
linguagem, seu esquema rimático e sua característica artística. Pode me
perguntar “o homem da terra nordestina brasileira” se é uma cantoria ou “o
homem da terra europeia” se é um trovo, ou “o homem da terra paulista” se é um
cururu, ou ainda “o homem da terra fluminense” se é partido alto, e a resposta
é a mesma, sim e não.
Por ser a
improvisação a arte mais antiga da humanidade e ao mesmo tempo a mais contemporânea
porque versa sobre estrutura tradicional com temas da atualidade, a resposta
não pode ficar num simples sim ou não. Vamos tentar responder semanalmente as
inquietações, e isto pode nos permitir desvendar os mistérios da poesia oral
improvisada, definir sua geografia, conhecer suas mais diversas nomenclaturas,
suas estruturas estróficas, suas temáticas, seus adornos instrumentais, seus
cultuadores, seus principais autores no mundo, os improvisadores referenciais
de cada cultura, as obras gravadas e os livros editados que podem abrir um
universo maior aos visitantes virtuais, os homens e mulheres aos quais queremos
nos dirigir.
O reconhecimento da Pajada
O Reconhecimento
da pajada como o primeiro patrimônio imaterial do Mercosul é uma campanha que
dura cerca de sete anos de trabalho. É um anseio da classe dos improvisadores
mundiais desde muito tempo, porém inicia com um trabalho de conscientização e
de união, no Chile, em 2008, quando um grupo de improvisadores de diversos
países está participando do Encontro de Casablanca, no qual Jadir Oliveira e eu
representamos o Brasil. Tenho a felicidade de, no decorrer de um almoço, propor
fazermos um trabalho de pesquisa, cada um em seu país, e com isto buscarmos
reconhecimento da Unesco para a poesia oral improvisada como patrimônio
imaterial da humanidade, haja vista que é considerada a arte mais antiga e ao
mesmo tempo mais contemporânea porque versa sobre a atualidade com estrutura
poética tradicional. Minha proposta é aceita, mas não consegue consolidar-se
por falta de contribuição dos companheiros. Todavia, um dos participantes
argentinos, o jovem pajador David Tokar, chega a seu país e encaminha a ideia
para o setor de cultura da sua cidade de San Vicente, na Província de Buenos
Aires e encontra o apoio do diretor de cultura Javier Carbone. Dentro de algum
tempo, o município declara a pajada como patrimônio imaterial da cidade. Em
2012, o Uruguai, através da municipalidade de Montevidéu, integra-se à
proposição e realiza um seminário de estudos nos dias seguintes aos da Semana
Crioula Internacional, com os improvisadores que participam do evento, sob a
liderança do músico Edgardo Muscarelli. Em 2013, o executivo de San Vicente
encaminha o mesmo processo a nível nacional, através da então Secretaria
Nacional de Cultura da Argentina e os técnicos federais de cultura vislumbram o
reconhecimento do Mercosul. Começa um longo trabalho de pesquisa documentada,
reuniões entre práticos e teóricos dos países do bloco e trabalho de
convencimento em todas as nações integrantes. Quando a Argentina transforma a
Secretaria em Ministério da Cultura, a proposta recebe o apoio incontestável da
ministra Teresa Parodi e realiza, em abril de 2015, o primeiro encontro de
pajadores do Mercosul, na Universidade de Avellaneda, com aprofundamento do
debate. Este encontro conta com
participações de Argentina, Brasil, Chile, Cuba, Venezuela e Uruguai. Os
representantes da pajada rio-grandense e brasileira, somos Pedro Junior e
eu. Este ato se torna fundamental para
consolidar o intento. Embora todos os países do bloco reconheçam a importância
da pajada como patrimônio Imaterial do Mercosul, são considerados proponentes a
Argentina e o Uruguai com a concordância dos demais ministérios de cultura das
nações integrantes do bloco. O ato de reconhecimento e de aprovação é assinado
na 38ª reunião de ministros do bloco,
dia 18 de junho de 2015, em Brasília, capital do Brasil. A representante da ministra argentina Teresa
Parodi no ato é a diretora nacional de política cultural e cooperação
internacional, Mónica Guariglio.
Representa o Brasil, o ministro Juca Ferreira. Também estão representados no
ato, Equador, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai.
No dia 06 de
novembro do mesmo ano acontece na capital do Paraguai, Assunção, o primeiro
Festival Cultural do Mercosul, no Teatro Guarny. Dentro da programação deste
evento, os representantes da Argentina, Brasil, Chile e Uruguai, recebem das
mãos da ministra de cultura daquele país, certificado de reconhecimento da
pajada como o primeiro patrimônio imaterial do Mercosul. Desta feita estou solo, representando nosso
país. Pela Argentina estão Marta Suint, David Tokar e Juan Alberto Lalanne,
pelo Chile, Jorge Céspedes Romero ( Manguera) e pelo Uruguai, José Curbelo e
Juan Carlos Lopez. Todos nós somos conscientes de que representamos não só os
pajadores naquele ato, mas também todos os improvisadores não só do Mercosul.
Ali se vê representada a poesia oral improvisada, considerando que somos
componentes de um grupo de cultuadores de um sistema integrado da poesia oral,
independente da nomenclatura que esta arte possa ter em cada país ou região. Ao
meu modo de entender, o reconhecimento da pajada é um aporte para a trova
gaúcha, o partido alto, o cururu, o calango,
a cantoria, o repente, a embolada, o maracatu rural e de baque solto e
outras denominações que possam ter a improvisação brasileira. Também estendo
este reconhecimento ao trovo espanhol, a cantoria portuguesa, a trova borícua
porto-riquenha, o bertsolarismo basco e outras formas de improvisação mundial.
A Pajada em Assunção
A
entrega do certificado da Pajada como Patrimônio Imaterial do Mercosul no 1º
Festival Cultural do Mercosul inicia com uma pauta solene protagonizada pelos
representantes dos ministérios do bloco, artistas dos países, homenagens e
pronunciamentos. As atuações de bailarinos, músicos e cantores são aplaudidas
com muito entusiasmo, o que é natural, dado ao reconhecimento e a popularidade
de todos que ali atuam. O homem de marte pode estar me perguntando que
certificado e eu respondo que isto está no texto anterior.
Os
pajadores que representam Argentina, Brasil, Chile e Uruguai ingressam apreensivos
ao palco, haja vista que todos se preparam para atuar pela primeira vez no
Paraguai e ainda com o agravamento de que estão na capital de um país em que a
improvisação não é pulsante. Isto significa a necessidade de precaução por
estar transitando num campo, ao qual se chama de formação de plateia, haja
vista que a pajada não é vigente no Paraguai, exceto nalgum rincão que
porventura tenha se mantido algum tipo de improvisação autóctone sem destaque
maior perante o grande público.
No
ato de recebimento do diploma sente-se o calor humano do povo paraguaio e um
alívio se nota na face de cada pajador. Ao iniciar o improviso, a receptividade
é surpreendente. Há uma acolhida calorosa com aplausos e manifestações de
satisfação, décima a décima, como acontece em territórios antes trilhados. No
encerramento da pajada, grande parte do público aplaude em pé, pedindo outra
pajada, a ponto da imprensa local noticiar como ponto alto da noite. Entende-se que a cena está dentro de um
contexto de integração dos países do bloco e que os pajadores estão habituados
a protagonizar espetáculos desta natureza, o que faz tudo fluir naturalmente.
Além disso, o elenco da noite há mais de década atua junto em diversos países,
e como diz Glênio Fagundes, a interação é tão natural que não é necessário o contato
visual.
Esta
experiência me faz acreditar ainda mais numa frase que costumo usar para
definir esta maravilhosa arte: Encontro muita gente que desconhece a pajada,
mas não quem conheça e não goste.
Paya, Payada e Pajada
A declaração da
pajada como Patrimônio Cultural do Mercosul, automaticamente reconhece a todas
as formas de improvisação do bloco, mas os chilenos, cuja nomenclatura desta
arte é “paya”, preferem solicitar um reconhecimento com o nome pelo qual é
conhecida a improvisação naquele país. A oficialização da Paya acontece naturalmente
no dia 03 de maio de 2016, em Colônia do Sacramento, no Uruguai.
O Homem de marte
deve estar se perguntando qual diferença que há entre paya, payada e pajada.
Posso lhe responder que há mais semelhança do que diferenças. Tanto no sul do
Brasil, no Rio da Prata quanto no Chile, a estrofe pela qual os pajadores se
expressam é a mesma, a Décima Espinela. Sim, aquela estrofe que ele chama de
redondilho e posteriormente Lope de Vega, passa a chamar de Décima Espinela, em
homenagem ao seu ídolo. Segundo os historiadores ela surge no livro Diversas
Rimas, de Vicente Espinel, no ano de 1531, na Espanha. Outra similitude está
nas temáticas de campo e questões sociais que são as mesmas. Talvez a
improvisação chilena seja mais divertida do que as dos demais países. O humor
daquele povo está bem claro na sua arte. Já nas diferenças está na indumentária
dos artistas. A maioria dos payadores chilenos não se apresenta com a
indumentária do huasso (pronuncia-se guasso), o que para nós seria gaúcho e
para os rio-platenses, gaucho. Eles preferem se distanciar da questão
tradicionalista, porque lá o que chamamos de rodeio, eles denominam Festa
Patronal, e o improvisador chileno é considerado um cantor popular, acima desta
ligação com o patrão. Outros detalhes que diferenciam são o instrumento e a
melodia de acompanhamento do verso improvisado. Eles se acompanham com o
guitarrón, um instrumento de vinte e cinco cordas, que tem uma característica e
uma afinação própria e possivelmente tenha se originado de outro instrumento da
cultura moura. Há uma série de melodias tradicionais específicas para a
improvisação chilena, mas a mais executada é a “Comum”, uma melodia lenta para
ser cantada despacito.
Mas por que paya
e não payada, pode estar se perguntando o leitor, haja vista que esta é a
nomenclatura da arte na Argentina e no Uruguai, países também de fala
hispânica. Posso responder que a palavra Paya possa estar bem mais próxima da
origem deste termo do que as demais e que payada e pajada sejam uma derivação
desta ou de outra que tenha originado as três.
Não há uma
convenção para a origem da expressão que dá título a nossa arte, mas um leque
de possibilidades. Alguns autores afirmam que possa ter vindo de “Payo”, nome
primitivo do habitante de Castela, outros de “Pago”, lugar onde se nasce ou
“Pagueador”, fazedor de pago. Há quem sugira que tenha vindo do Quíchua
“Palla”, nome dado por estes povos silvícolas aos cantores e cantorias das
praças das aldeias. Ninguém sabe ao certo, mas arrisco-me a posicionar-me.
Considerando que as palavras paya, payada e pajada não são conhecidas em outros
continentes, senão no sul da América, creio que elas sejam originárias daqui e
possam ter vindo do Quíchua, sim. Justifico esta minha tomada de posição dando
voz a dois chilenos: O escritor, filósofo e folclorista chileno, Julio Vicunha
Cifuentes, que nasce em La Serena, em 1º de março de 1865 e morre em Santiago,
em 16 de outubro de 1936, registra em 1926, “umas pallas entre Clemente Ruiz e
José Tejada”. Também cita que “o nome de palladores não convém a todos os
bardos populares”, reforçando que esta alcunha somente se dá aos que
improvisam. O poeta Pablo Neruda, que nasce em Parral, em 12 de julho de 1904 e
morre em Santiago, em 23 de setembro de 1973, registra em seu poema “Oda a los
Poetas Populares” a palavra com a mesma grafia que nos permite acreditar que
tenha vindo do Quíchua: “Palladores, poetas humildemente altivos...”.
Independente de
qual seja o étimo para a formação da palavra que dá nome à poesia oral
improvisada do sul da América, é importante termos nitidamente a certeza de que
se trata da mesma expressão artística e, embora com alguma diferença na grafia
e na pronúncia, tratamos da mesma sagrada cultura de fazer verso de improviso,
soltando rimas ao vento, sempre pensando o último verso para construir a
estrofe na conceituada Décima Espinela. Que estamos integrados e temos o
privilégio de ver nosso trabalho de integração das nações, como Patrimônio Cultural Imaterial do
Mercosul.
Diferenças e Semelhanças Entre Trova e Pajada
O Rio Grande do
Sul possui, além dos cantores do divino que também são improvisadores, suas mais
reconhecidas artes como improvisação na trova e na pajada. A pajada anda engatinhamos
enquanto seu formato estético, haja vista que foi resgatada faz muito pouco
tempo e ainda se improvisa somente em décima, mas a trova possui um movimento
impressionante, mais antigo, mais numeroso e mais variado esteticamente. Os
trovadores são protagonistas de uma expressão cultural extremamente popular no
sul do Brasil e que se torna como importante identidade do artista
rio-grandense em qualquer parte do país. Basta se abrir um acordão, que nós
chamamos de gaita, em mi maior, e já se identifica a procedência sulina
brasileira. A mais reconhecida das improvisações gaúchas em território nacional
é a trova em Mi Maior de Gavetão, hoje oficializada como Trova Campeira. Contudo
há outros tipos de trova, a Trova de Martelo, a Estilo Gildo de Freitas e a
Trova de Tira Teima.
A Trova de
Martelo tem suas particularidades e exige uma rapidez de raciocínio mais
apurado, haja vista que não há interlúdio musical entre uma estrofe e outra e
há um jogo de armadilhas poéticas que o contendor deve fazer o possível para se
livrar. A Trova Estilo Gildo de Freitas é a mais jovem de todas as modalidades,
surge na década de 1980, quando alguns trovadores passam a improvisar sobre a
melodia da obra de Gildo de Freitas, intitulada Definição do Grito. Já a trova Tira Teima está praticamente caindo
em desuso.
Dizem os
historiadores que a trova nasce em quadra e que somente se torna em sextilhas
com o advento da introdução no Rio Grande do Sul, do acordeão, pós-guerra do
Paraguai, porém em meus estudos chego a suspeitar que nasça em décima, tomando como
exemplo o guerreiro Pedro Canga (Pedro Muniz Fagundes) que peleia na Revolução
Farroupilha nas Forças de Silva Tavares. Ele improvisa em décimas e é
reconhecido como trovador no Período Farroupilha (1835-1845). Também para incentivar
a dúvida, relembro que o termo “quadra” é como se chamam as décimas em Portugal
em importante período de sua difusão, enquanto a nossa pátria nasce. Contudo
durante a citada guerra da Tríplice Aliança já encontro versos em sextilhas no
estilo trovadoresco (ABCBDB), forma que até hoje é usada na trova campeira,
também conhecida como Mi Maior de Gavetão.
A trova em geral
e a pajada possuem Importantes diferenças. A primeira é cantada e acompanhada
de acordeão e a segunda, recitada acompanhada de violão (guitarra). A Primeira
é feita em sextilha (ABCBDB) ou nona (ABCBDBEEB) e a segunda, em décima
(ABBAACCDDC), ou seja, a trova tem versos brancos em sua estrofe e a pajada
não. Na pajada todos os versos são rimados entre si. A trova utiliza-se do que os estudiosos do
trovadorismo chamam de “leixa-prende”
(=deixa-prende), que é o recurso de apanhar o último verso do seu oponente e
começar sua estrofes improvisada com o mesmo verso por inteiro ou com pequena
variação. Na pajada não se exige isto, apenas que o tema seja seguido. A pajada
encerra com a meia-letra, aquela estrofe em que os pajadores vão intercalando
veros até o final da estrofe, já a trova cada trovador encerra sua atuação com
uma estância inteira. A trova, em geral, é expressa com linguagem popular mais
simples do que a pajada que procura abordar temas mais profundos e mais
intelectualizados. Talvez por isso, a primeira seja mais popular que a segunda.
Nota-se que em cada uma das expressões artísticas de improvisação há fatores de
dificuldade e de flexibilidade diferenciados o que justifica seu grau de
dificuldade dentro de cada parâmetro.
Dentre as
semelhanças estão os fatos de ambas serem improvisações, necessitarem de um
músico de apoio e se beneficiarem da rima consoante, aquela que combina desde a
vogal da última sílaba tônica com semelhança de som até o final da palavra
derradeira do verso (fu tu ro - se gu ro). Ambas circulam no meio
do nativismo e tradicionalismo rio-grandenses e são formadoras do imaginário do
gaúcho rio-grandense.
São artistas
referenciais destas formas de improvisação, Gildo de Freitas para a trova e
Jayme Caetano Braun para a pajada. Todavia, nas duas modalidades há nomes
expressivos na atualidade que dão legitimidade e preservam a improvisação
gaúcha em alto mastro e bom tom. Em alguns casos, há interação entre trova e
pajada, inclusive com alguns praticantes da arte que são reconhecidos como
trovadores e pajadores e atuam nas duas frentes.
Os Cantores do Divino Improvisam
Na exposição passada falo sobre os tipos de improvisação no Rio Grande
do Sul, introduzindo o texto citando os cantadores do divino como
improvisadores. O “homem de marte” deve estar se perguntando quem são os
cantores do divino? Por isso é importante explicitar que com colonização
hispano lusitana na América são introduzidas tradições importantes da Península
Ibérica e do arquipélago dos Açores, como as cantorias do divino e os Ternos de
Reis.
Estas manifestações culturais, vindas especialmente dos Açores se
estabelecem em diversos estados do país, mas nas cidades gaúchas estão mais
preservadas nas regiões sul e litoral do Rio Grande do Sul.
É importante ressaltar que o arquipélago dos Açores tem em sua
colonização, forte expressão migratória dos chamados novos cristãos, judeus e muçulmanos
convertidos, e de populações do oriente médio, nascedouro do cristianismo. Os
descendentes destes pioneiros açorianos, depois, vêm desbravar o Brasil. Também
se somam as evidências das pregações através do chamado contrafactun, as transformações de canções profanas em sentidos
sagrados, procedimento muito usado pela Companhia de Jesus em seus diversos
territórios de sua missão.
A Festa do Divino é a festa da fartura, e o seu
motivo central é que o Espírito Santo abençoe e que proteja as terras com boa
colheita. Por isso há fartura de pão, carne, vinho e cantoria.
Nos Açores é cultura vigente com pequenos grupos
que vão de casa em casa com suas cantigas, acompanhadas de tromborete e
címbalos, cantando os feitos do Divino Espírito Santo e improvisando versos. Conheço
esta manifestação na origem por ter participado dos festejos de São Carlos, na
Ilha Terceira. No decorrer da festa em Louvor ao Divino Espírito Santos, nós os
improvisadores visitamos as famílias, homenageando os anfitriões com versos de
improviso e recebendo sua cortesia com mesa farta.
No Brasil se mantém as diversas manifestações
açorianas na maioria dos estados da federação, mas na maioria dos grupos já não
se fazem presentes os improvisadores.
Em vários países hispano falantes esta tradição
é vigente. No Chile, por exemplo, é muito expressiva, especialmente no vale
central do País, região em torno da capital, Santiago, com os cantores do
divino que normalmente também são pajadores. Possuem uma tradição poética que
chamam de “Canto a lo Poeta” que se divide em canto ao Humano e ao Divino.
Trago a luz o Canto ao Divino, que hoje nos interessa, para dizer que os
cantores do Divino cantam versos de memória sobre temas religiosos, o antigo e o
novo testamento, além de temas de inspiração bíblica, mas também improvisam uma
décima de saudação e outra de despedida. Chamada de “Décima Enquartetada”, o
que par nós rio-grandenses é a “décima glosada”, ou seja uma quadra e depois
quatro décimas cada uma encerrando com um verso da quadra. Somando-se a essas
quatro décimas eles acrescentam mais duas estrofes, um de saudação e outra de
despedida. Normalmente estas duas são improvisadas.
A introdução desta tradição chilena está creditada
à Companhia de Jesus, que para catequisar se utilizou da décima e da quadra.
No Brasil, os improvisadores destas festas
religiosas ainda se encontram nos ternos de reis, cujos mestres possuem a incumbência
de improvisar numa situação inusitada e interessante, mas isto nós vamos
conhecer no próximo texto. Também vamos
traçar um paralelo destas cantorias de Reisado com as Janeiras, tradição ainda vigente em Portugal.
Os Mestres Improvisadores
As manifestações religiosas praticadas pelos católicos no período natalino
são conhecidas como Cantigas de Reis, Reisadas, Folias de Reis, Terno de Reis,
Cantoria de Reis, Chegadas dos Santos Reis, Cheganças, etc...
Quando da fixação do nascimento de Cristo em de 25 de dezembro, adota-se
o dia 06 janeiro como a data de visitação dos Reis Magos, Melchior, Baltazar e
Gaspar, ao recém-nascido, Jesus Cristo.
Alguns autores afirmam que o Reisado tenha se originado no Egito,
quando em 06 de janeiro comemora-se a Festa do Sol Invencível e adaptado,
inicialmente, pelos romanos em 25 de dezembro, data de nascimento de Cristo,
segundo os cristãos.
Readaptada aos folguedos lusitanos, a festa de reis acontece no
período de 24 de dezembro, véspera de Natal a 06 de janeiro, dia dos Santos
Reis, quando os grupos de cantadores e instrumentistas vão de casa em casa,
recriando a visita dos Três Reis Magos a Jesus. Antes da transformação
comercial do Natal, com Papai Noel e outros engodos, as comemorações são
através dos ternos de reis. Segundo a
maioria dos estudiosos, estas manifestações chegam ao Brasil através dos
imigrantes luso-açorianos. São consideradas folclóricas ou tradicionais em
território brasileiro e ainda estão vigentes em diversas cidades, especialmente
em localidades rurais. A apresentação se divide em três etapas: a chegada,
quando saúdam os donos da casa, pedindo permissão para entrar. "Ó da casa,
nobre gente / escutai e ouvireis, / da parte do Oriente, / são chegados os três
Reis"; a segunda etapa é a louvação ao Menino Jesus, junto ao presépio.
Neste momento os anfitriões oferecem mesa farta aos visitantes, agradecendo a
bênção da visita; a terceira é o agradecimento pela recepção e a despedida.
A diferença entre as “cantigas de reis” e as “janeiras”, cultura
popular vigente em Portugal, é que esta segunda é a circulação de grupos de
pessoas pelas ruas, cantando em anunciação do nascimento de Jesus e desejando
feliz ano novo. Estes grupos vão de porta em porta pedindo aos moradores as
sobras das Festas Natalinas. Estas sobras hoje são substituídas por dinheiro.
Já as cantigas de Reis são visitação a casas específicas em rememoração aos
Reis Magos, como já vimos anteriormente.
Neste momento, o homem de marte deve estar se perguntando o que tudo
isso tem a ver com a improvisação. Já estou para fazer esta elucidação. O Terno
de Reis é composto por cantadores e instrumentistas e coordenado pelo seu
personagem mais importante, o Mestre, também conhecido em algumas regiões como
Embaixador. Este é o improvisador do grupo tradicional, embora atualmente seja
comum encontrar Ternos de Reis sem improvisadores, mas isto começa a ser algo
que se distancia do formato original.
Os cantares de reis são obras de inspiração bíblicas, memorizadas, mas
a improvisação sobre estes mesmo temas pode acontecer a qualquer momento, porém
a situação mais inusitada e interessante da improvisação se revela quando há o
encontro de dois grupos de cantadores na mesma residência. Segundo a tradição,
não podem estar dois grupos dentro da mesma casa. No entanto, se um grupo chega
e há outro já dentro de casa, começa o embate poético entre os mestres de cada
grupo, naturalmente, um dentro da casa e outro fora. Se neste confronto de
poesia oral improvisada, normalmente feita em estrofes de quadras, o grupo
chegante vencer, o que está dentro da casa se retira e cede o espaço para o
outro entrar. Se acontecer o contrário, o chegante se considerar vencido, vai
cantar noutra residência, sem o privilégio de entrar e abençoar aquela família.
Creio que daí tenha surgido o ditado popular, “vai cantar noutra freguesia”.
No Rio Grande do Sul são frequentes os Grupos de Terno de Reis nas mais
diversas cidades, mas com forte destaque em Santo Antônio da Patrulha, Osório,
Palmares, Mostardas, Taquara, Gramado, Canela, Gravataí, entre outras. Porém é
importante ressaltar que a tradição está presente em diversos estados
brasileiros.
O consagrado grupo musical Os Mirins registra a composição “Terno de Reis”,
em seu disco Imagens do Sul, que confirma as três etapas citadas acima e a
existência de improvisação neste tipo de cantoria. Vejam a letra e o vídeo:
Terno De Reis
(Autores: Francisco Castilhos e Alziro Adalberto de
Castilhos)
Meu senhor dono da casa,
Meu senhor dono da casa os três reis que vão chegando...
Esta canção quem cantava era o meu velho pai
Com terno marchando até hoje ainda sai
De dezembro a janeiro parando no dia seis
Cantando de porta em porta a fada dos santos reis
Já que o senhor abriu a porta,
Já que o senhor abriu a porta e está nos escutando
Pedimos sua licença, ai,
Pedimos sua licença, ai pra poder entrar cantando, ai.
E na frente do presépio contemplando o salvador
Improvisavam seus versos com carinho e muito amor.
Falavam de sua fé de ternura e querer bem
Parece que Jesus Cristo estava cantando também.
Vamos parar de cantar, ai,
Vamos parar de cantar, ai para este povo estimado, ai,
Entregando sua família, ai,
Entregando sua família para o meu Jesus amar
Nosso terno vai embora
Meu senhor dono da casa os três reis que vão chegando...
Esta canção quem cantava era o meu velho pai
Com terno marchando até hoje ainda sai
De dezembro a janeiro parando no dia seis
Cantando de porta em porta a fada dos santos reis
Já que o senhor abriu a porta,
Já que o senhor abriu a porta e está nos escutando
Pedimos sua licença, ai,
Pedimos sua licença, ai pra poder entrar cantando, ai.
E na frente do presépio contemplando o salvador
Improvisavam seus versos com carinho e muito amor.
Falavam de sua fé de ternura e querer bem
Parece que Jesus Cristo estava cantando também.
Vamos parar de cantar, ai,
Vamos parar de cantar, ai para este povo estimado, ai,
Entregando sua família, ai,
Entregando sua família para o meu Jesus amar
Nosso terno vai embora
O
pajador, trovador e poeta Adão Bernardes também ratifica a existência de
improvisação dos mestres em seu poema em décimas, “Cantigas da Anunciação do
Supremo Advento”. Reproduzo aqui uma estrofe:
“O presépio é o
cenário
onde os mestres improvisam
na cantiga nos avisam
que o supremo
mandatário
num gesto
extraordinário
de confiança e de
bondade
pra nos mostrar a
verdade
a luz e o melhor
trilho
encarregou a seu filho
de salvar a
humanidade.”
O Improviso na Polca de Relação
A Polca de
Relação (polca de relación, em espanhol) é também conhecida no Rio Grande do
Sul como “meia-canha” ou “meia-cana”, ou ainda “polca de cantar” e “havanera
das damas”, em algumas regiões do Estado. Em São Paulo, na região desbravada
pelos tropeiros, esta dança é conhecida como “guitarra” por influência
espanhola, na citação “pare la guitarra que voy decir mi relación” ou ainda
“arrasta-pé”. É uma dança de origem da Península Ibérica, trazida para a
América através dos colonizadores e disseminada no sul do Brasil,
principalmente pelos tropeiros. É vigente em diversos países com pequenas
variações, porém mantendo neles, o formato de dança circular e os versos em
quadras, no centro do salão. Seus versos normalmente são em heptassílabos
(octossíabos em espanhol). Aqui cabe uma explicação ao homem de marte. Os
versos, tanto para os de fala lusa quanto para os de fala hispânica possuem a
mesma medida, o que muda é a forma de contagem das sílabas sonoras, o que
chamamos metrificação. A cultura portuguesa, e consequentemente a brasileira ou
de outros países que falam português, adota a contagem até a última sílaba
tônica, já a cultura Espanhola adota a medida até a última sílaba do verso.
Exemplo em
português: Quan / do / can / to / me / ia / ca
/nha
01 02 03
04 05 06
07 00
Exemplo em
espanhol: Cuan / do / can / to / me / dia / ca / ña
01 02
03 04 05
06 07 08
Bueno,
seguimos... Os pares estão dançando e alguém solicita que parem a música, o
homem diz um verso para a mulher, segue a música por alguns acordes e se
interrompe novamente para que a mulher responda, também em verso. Segue o baile
até a nova interrupção e outro casal possa contrapontear versos, e assim por
diante. Estes versos são dispostos em estrofes de quadras, normalmente em ABCB,
ou seja, com rima nos pares, deixando os ímpares como versos brancos, sem rima.
Ou também em ABAB, rimando o primeiro com o terceiro e o segundo com o quarto
verso. Embora hoje se use somente versos de memória na maioria das
apresentações artísticas, na cultura tradicional estes versos podem ser
decorados, mas muitos são de improviso. Os versos exclusivamente memorizados em
grupos de danças são aceitáveis por serem representações do tradicional para o
espetáculo. No entanto, no âmbito original, os improvisos aparecem no momento
em que um verso seja desafiante e requeira necessária resposta à altura. Também
são comuns os momentos em que uma pessoa não se sinta competente para versejar
ou por timidez solicite amparo no verso de outro. Surge aí a preciosidade do
improviso quando os poetas repentistas relatam a cena inusitada com
criatividade e graça. Ou ainda, quando os bailarinos querem mostrar-se com
habilidade de improvisação na atração de seu par e a natural concorrência se
estabelece para ver quem improvisa melhor.
Voltando a
analisar as apresentações contemporâneas desta dança, noto na maioria das
observações que faço dos atuais grupos, que cometem três erros crucias: o de
exagerar na expressão campeira, às vezes agressiva, chegando a parecer
grosseria e mau gosto, haja vista que o gaúcho por mais rude que seja, sempre é
um homem respeitador, especialmente para com a mulher, e esta, normalmente
demonstra-se ser recatada, diante do par, especialmente na dança; o outro
equívoco é pura falta de conhecimento poético e indisposição à pesquisa, pois é
lamentável se observar o pronunciamento de versos quebrados, ou seja, versos de
medidas diferentes dentro da mesma estrofe, algo inaceitável no mundo da
improvisação; e, um último não muito comum, mas existente nos grupos que
representam esta dança, é de o verso de resposta não ser resposta e sim algo
sobre outro tema qualquer. O bonito da polca de relação é o jogo de desafio e
resposta.
Para encerrar, descrevo duas estrofes que servem de exemplo do
tradicional canto da Polca de Relação, versando sobre a mesma temática,
expressão natural da improvisação:
O Homem de Marte Está Confuso
No primeiro texto
me comprometo a “escrever ao homem de marte”. Esta expressão é uma metáfora usada
nos meios acadêmicos para definir o formato que deve ter o texto de um
jornalista. Precisa considerar que seu leitor não tenha conhecimento anterior
sobre a sua abordagem e, assim, dar-lhe todas as informações para sua
compreensão. É a imagem de um homem de outro planeta que ao chegar à terra, pega
o texto, sem ter contatado algum com o assunto. A decisão não me parece
exagerada porque a improvisação é um mundo aparte e sofre muitos atos de
preconceito por falta de conhecimento da população em geral. É considerada arte
menor pelos que a ignoram e superior pelos que a conhecem com profundidade.
Justamente por este motivo é que aceito o desafio de escrever sobre um tema que
tem público reduzido. Tento oportunizar às pessoas o conhecimento detalhado de
algo que faz parte da cultura de todos os povos e os menos avisados pensam se
tratar de algo regional e de menor importância.
Procuro enfatizar
os detalhes em cada texto para que sejam bem entendidos, mas creio que esmiuçar
mais pode facilitar o entendimento de outros textos.
O improvisador
tradicional improvisa por estrofes rigidamente definidas, em versos
metrificados (simétricos), rimas consoantes e em contraponto. Verso quebrado no
improviso é falha grave e caracteriza a falta de qualidade do improvisador.
Procuro
descomplicar para o homem de marte este parágrafo acima:
Estrofe é o
conjunto de versos dispostos de forma ordenada, com unidade de conteúdo e ritmo
que produzem um poema, neste caso, de improviso, já que nosso tema é a
improvisação. Por exemplo, a estrofe da pajada é a décima (dez versos), já a da
trova é a sextilha (seis versos) e da Estilo
Gildo de Freitas é a nona (nove versos).
Veja os tipos de
estrofes e suas nomenclaturas: 01 verso – monóstico, 02 versos – dístico,
03 versos – terceto,0 4 versos – quadra ou quarteto, 05 versos – quintilha, 06
versos – sextilha, 07 versos – septilha, 08 versos – oitava, 09 versos – nona,
10 versos – décima. As que possuem mais de dez versos são chamadas de estrofe
irregular.
Todo o
improvisador deve metrificar seus versos, ou seja, fazer uma estrofe de versos
de mesma medida, da mesma quantidade de sílabas sonoras. A contagem destas
sílabas sonoras, chamamos de metrificação ou escanção. No texto anterior faço
uma exemplificação desta questão e explico a diferença da metrificação para os
de fala lusa e os de fala hispânica. A
palavra “simétrica” vem de simetria e na poética é usada para definir verso com
mesma simetria, mesma medida, mesma metrificação, mesma quantidade de sílabas.
Um verso quebrado é “assimétrico”.
Veja o exemplo de
versos simétricos de sete sílabas, os setissílabos, também chamados de
heptassílabos ou redondilha maior:
Quando canto,
estou feliz / Porque nasci pra cantar.
Agora, veja
exemplo de versos assimétricos, sendo o primeiro verso com menor número de
sílabas, ou seja, verso quebrado em se tratando de uma improvisação em
heptassílabos:
Eu canto feliz (05 sílabas)
/ Porque nasci pra cantar. (07 sílabas)
Ratifico agora, a
questão da rima consoante. É aquela que tem igualdade de som desde a vogal da
última sílaba tônica até o fim da palavra: mundo – fundo - fecundo, ciência -
experiência - consciência, prato – retrato - acato...
E, finalizando a
explicação do parágrafo, a palavra contraponto por si só já se explica, é o
embate entre dois contendores na improvisação. Porque há um grau de dificuldade
improvisar solo e outro, bem superior, improvisar em contraponto, quando o oponente
pode criar armadilhas poéticas que exijam rapidez de raciocínio, conhecimento,
perspicácia e principalmente criatividade.
Estes
conhecimentos básicos citados são alguns dos mais primários de todos os tantos
e necessários para que um improvisador possa ingressar no restrito círculo dos repentistas
experientes.
Há outros
detalhes que vamos desvendando a cada página para que os leitores possam
entender esse mundo estranho da improvisação e principalmente para que cada um
que adquira esses conceitos, possa, com o tempo, ir se tornando simpático à
poesia oral improvisada e haja renovação do público que entende esta arte com a
verdadeira importância que ela tem. É a mais antiga e a mais contemporânea,
porque versa com estrutura tradicional sobre o mais atual.
A Improvisação no Período Farroupilha
O gaúcho, desde
sempre, possui uma tendência à poesia oral improvisada por vários motivos. Os
campos largos, a natureza exuberante, a solidão dos caminhos, o anseio de
liberdade, a disputa de território, as guerras de fronteira são alguns dos
fatos que levam o homem da pampa a ter uma forma de expressar seu sentimento.
Além do mais, o ser analfabeto não lhe permite registrar seus versos no papel.
Por isso, são soltos ao vento e recriados ao calor do momento através da
improvisação.
No Período
Farroupilha (1835-1845), juntamente com outros registros históricos, surgem
anotações esparsas sobre o lirismo que permeia as batalhas entre farroupilhas e
caramurus. Estes apontamentos deixam claros a existência da improvisação e o
apego ao verso. Alguns autores, hoje respeitados, mencionam e apontam versos
recolhidos com este sabor da época.
Apolinário Porto
Alegre, em seu livro Cancioneiro da
Revolução de 1835, apresenta farto material recolhido do período, em
estrofes de quadra, mote glosado, dístico, décima, copla real, soneto, entre
outros estilos. Fala em rudes bardos em torno dos fogões de acampamentos que ao
som das violas dedilhadas vigorosamente soltam versos que lhes vem à alma. E,
ressalta que estes versos são quase sempre frutos da improvisação e de um
repentismo eloquente. Cezimbra Jacques, em Assuntos
do Rio Grande do Sul, diz que os bardos rústicos manifestam pensamentos
elevados e ideias sublimes em suas poesias toscas. Já Fernando Osório em A Graça e o Lirísmo-Heróico dos Farrapos,
escrito no centenário da Revolução Farroupilha, recolhe, especialmente as
décimas, que hoje classificamos como no estilo Espinela, as quadras e os sonetos.
Afirma que o general Bento Gonçalves é adepto à poesia, como a maioria dos
homens de seu tempo.
Entre tantos
ricos detalhes, Fernando Osório cita a improvisação do tenente Osório com o
comandante das armas, Sebastião Barreto. O citado tenente Osório é Manuel Luiz
Osório, que luta inicialmente nas tropas farroupilhas e pós-proclamação da
República Rio-grandense retorna as tropas imperiais.
J.B. Magalhães,
em seu livro Osório – Síntese de Seu
Perfil Histórico, relata que numa oportunidade em que Osório viaja com dois
companheiros de juventude, ouve a queixa de um deles por um amor não
correspondido e acontece o seguinte diálogo:
- É assunto para um mote! Exclama Osório.
- Pois faça, diz-lhe um.
- Glose, acrescenta o outro.
- La vai, diz Osório depois de uma breve pausa.
Mote:
- se mais agradar desejo
- mais me foge o bem querido.
Glosa:
Que sou infeliz, bem vejo.
Vejo que sou desgraçado
e menos afortunado
se mais agradar desejo.
Contra o fato então forcejo,
em vão contra o fato lido,
sou sempre mal sucedido
nas duras lutas do amor,
se peço à Márcia um favor
mais me foge o bem querido.
Diversos autores,
a exemplo de Cezimbra Jacques, Moisés Silveira de Menezes, Guilherme Schutz
Filho, Simões Lopes Neto, Guilhermino César e outros, ressaltam os dons de
improvisador de Pedro Canga (Pedro Muniz Fagundes), soldado das tropas de Silva
Tavares. Embora seja citado por alguns como iletrado, me permito a discordar
porque os versos recolhidos e associados a sua autoria são de um lirismo que
dificilmente seriam produzidos por um analfabeto.
Considero que
Pedro Canga seja o mais reconhecido dos improvisadores do Período Farroupilha,
mas há outros, como Francisco Xavier Ferreira que morre no cárcere, Francisco
Pinto da Fontoura, o autor do Hino Rio-grandense, entre outros que soltaram
versos de improviso e nada se registra.
Banquinho Tipo Exportação
Estou de malas
prontas para mais uma turnê pelo Chile, de 10 a 20 de novembro deste glorioso
ano de 2016, considerado pelos místicos como ano da sabedoria, regido pelo
arcano maior do tarô, “o Eremita”, este que professa o amor à solidão, o
silêncio e o isolamento na busca da autossuficiência da alma. O momento é
apropriado para discorrer sobre algo que ecoa nas planícies entre as Cordilheiras
dos Andes e lugares ermos no alto das montanhas.
O tema que abordo
é uma das tantas facetas do canto improvisado chileno, “el banquillo” (o
banquinho). Esta modalidade tem tamanha aceitação que vira produto cultural de
exportação e tem sido apresentado em outros países, por pajadores locais,
inclusive no Brasil. A disseminação do banquillo está relacionada à circulação
de improvisadores internacionais nos encontros de Pajadores do Chile.
A modalidade é um
jogo de perguntas e respostas entre os improvisadores, quando normalmente o
público elege quem e sobre o que perguntar. Todos os troveiros elaboram suas
perguntas em estrofes de quadras e o interrogado deve responder também em
quatro versos, imediatamente. Neste embate descontraído, em que vale mais o
inusitado do que a poética, mede-se a rapidez de raciocínio, a criatividade, o
conhecimento e a perspicácia de respostas à altura ou superiores as perguntas. Quando
o espetáculo conta com um número reduzido de pajadores há um rodízio e todos
perguntam e respondem, cada um a sua vez, é claro, porém quando há bastante
participantes, elege-se um e este é bombardeado por uma rodada de perguntas dos
demais.
O banquillo, por
ser um contraponto de perguntas e respostas, fortalece o argumento de que ao
improvisador não basta apenas conhecer as técnicas de rima, métrica e poética. É
necessário conhecimento das diversas culturas das nações e regiões envolvidas
em cada encontro de pajadores, dos saberes ancestrais e contemporâneos, das
multifaces da história, da geografia e especialmente do canto improvisado
mundial. E isso não é somente para o banquillo, embora ele ressalte esta responsabilidade,
é para o engrandecimento do fazer artístico do improvisador, para o deleite do
público e para a sustentabilidade da cultura autóctone.
O improvisador
histórico, muitas vezes considerado um eremita, é o amante do silêncio, misto
de monge e de andejo, conhecedor dos caminhos, sabedor das notícias e por isso,
considerado o primeiro jornalista, antes de a escrita dominar os rincões ermos.
Ele é o que vive no isolamento de seus pensamentos, na construção de sua sabedoria,
a renegar conceitos de falsas ideologias da pseudocultura e do ilusório externo
e transitório. É um bombeador dos caminhos, que aqui no sul do continente
americano, ao matear, silencia e avista lonjuras para produzir sua filosofia de
vida. O pajador está legitimado no banquillo e este se legitima no canto
improvisado da maioria dos países, aliás, já que divago, aproveito para
professar algo que o futuro há de conferir: o banquillo há de ingressar na
cultura da improvisação mundial, assim como a titulação de improvisador mais
conhecida no planeta há de ser ao lado de trovador, a palavra pajador. Aqui cabe
um esclarecimento: o homem de marte deve estar se perguntando o porquê de eu
citar a palavra pajador ao lado de trovador. Creio que, atualmente, o sinônimo
mais popular de improvisador em qualquer nação seja trovador, em virtude do
movimento poético literário chamado trovadorismo, que surge na idade média, no
século XI. Contudo, no século XX, um novo movimento poético de raiz se
apresenta em esfera planetária e se firma nos primeiros anos do século XXI, que
é o movimento pajadoril. Por isso, não temo em afirmar que a palavra pajador
possa ganhar tal importância, em virtude da quantidade de encontros de
pajadores no sul do mundo, com participações de verseadores dos mais diversos
países, como estes, aos quais vou, no Chile.
Por fim, talvez
neste momento em que o leitor esteja lendo este texto eu já me encontre lá,
dividindo palcos, mesas, brindes e experiências com meus pares de oito países e
por certo compartilhando de momentos especiais nos banquillos, nos brindes, nos
pés forçados, nas redobradas e nos contrapontos de cada encontro.
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